a descoberta da paramiloidose

Em 1939 Corino de Andrade chegou a Portugal de Berlim, para fugir à guerra, abandonando uma ilustre carreira médica e científica em Neurologia no estrangeiro. Em Portugal a especialidade de Neurologia dava os primeiros passos e não foi fácil para Corino de Andrade encontrar um local para trabalhar, mas finalmente uma porta abriu-se no Hospital de Santo António. Ali não havia serviço de Neurologia e foi ele quem criou a primeira consulta da especialidade, primeiro uma consulta ambulante, em que ele percorria os corredores à procura de doentes que poderiam ser neurológicos. Pouco tempo depois, foi ter com ele uma doente que ninguém conseguia diagnosticar. Essa paciente levá-lo-ia até à zona de Vila do Conde e Póvoa de Varzim onde ele encontrou muitas outras pessoas com mesmo problema. Naquele foco, os pacientes manifestavam tipicamente a doença na terceira ou quarta década de vida e os seu quadros clínicos caracterizavam-se por uma perda de sensibilidade à temperatura e à dor, inicialmente nos pés e uma progressiva perda de função do sistema nervoso autonómico (que regula as funções inconscientes do nosso corpo) levando à perda de força muscular, à má absorção intestinal, à disfunção dos esfíncteres, a anomalias cardiológicas, emagrecimento e morte.
Corino de Andrade passou 13 anos a estudar aqueles doentes até que, em 1952, publicou na revista Brain, aquela que seria a primeira descrição da Paramiloidose. O artigo intitulado A Peculiar Form of Peripheral Neuropathy deixava bem claros os pilares fundamentais da PAF: o facto de ser uma Polineuropatia, ou seja uma patologia que atingia vários nervos, de ser Amilóidotica, caracterizada pela deposição de uma substância amiloidóide, e o facto de ser Familiar, ou seja com carácter hereditário: Polineuropatia Amilóidótica Familiar – PAF.
Este trabalho lançou as bases para uma frutífera investigação sobre a doença que veio rescrever para sempre o destino dos seus portadores. Nos anos seguintes a PAF foi reconhecida noutros locais: Suécia, Japão, Maiorca, Brazil, Estados Unidos… tornando-se num foco de interesse da comunidade científica internacional.
Em Portugal, Corino de Andrade criaria o Centro de Estudos de Paramiloidose (CEP), onde a clínica e a investigação coexistiam lado-a-lado. Reunindo à sua volta uma série de entusiastas cientistas e médicos, neurologistas, bioquímicos, matemáticos, biólogos e geneticistas, o CEP foi responsável por algumas das principais descobertas sobre a PAF, tornando-se numa referência mundial.

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